“Somos todos pessoas”
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“O estigma das pessoas em relação à etnia cigana só pode ser combatido com a proximidade”. A opinião é de Fernanda Reis que, durante 40 anos, foi o rosto da Pastoral dos Ciganos na diocese. Voluntária desta pastoral desde 1968, garante ainda que a necessidade maior dos ciganos é “a escolarização e a formação”.

“Com quase 50 anos dedicados à etnia cigana, Fernanda Reis (FR) apela à proximidade para combater o estigma em relação a este povo”.  “Eu só passo do preconceito ao conhecimento se me aproximar. (…) Se eu nunca der o passo de aproximação, nunca vou conhecer”.

FR garante ser necessária uma “verdadeira escolarização”, deste povo, porque “estando mais informados, eles depois podiam escolher profissões e não deixarão por isso de ser bons ciganos e boas ciganas. Estarem escolarizados é uma condição para serem independentes, para exercerem Para FR “o problema da escola, ainda hoje, não está resolvido. Parece impossível, lamenta”. Estando naturalizada a matrícula das crianças no pré-escolar (embora  refere que "todos os anos temos que os lembrar"), assim como no 1º ciclo, no 2º ciclo as escolas são mais longe de casa e surge o problema do casamento precoce. "Numa sociedade como a dos ciganos, que ficou com características antigas,tudo se passa muito rapidamente. Vive-se mais depressa, morre-se mais cedo". São "pouquíssimos  os que chegam a ter uma licenciatura”.  "Esta falta de escolaridade traz depois, consigo, 'os problemas de habitação e do mercado de trabalho' ”.

Nascida em Alcobaça, quando morou na Amadora, FR começou "a ver crianças ciganas a brincar na rua, à hora a que deviam estar na escola". Começou a falar com aquelas  crianças; as famílias começaram a ver as crianças a rodear uma estranha vieram ver o que se passava e começaram a conversar. Percebeu que existiam crianças e alguns adultos que nem sequer estavam registados. Recorda ainda que uma criança cigana lhe disse: “O meu pai pede para depois, quando puder, cá voltar” Não foi fácil entrar no desconhecido, assume, “mas, acrescenta, fui muito bem recebida”. "Foi a partir destes encontros ... que nasceu a paixão de FR pelo povo cigano". Começou então a trabalhar no sentido de matricular as crianças. Depois de começar a registar as pessoas, o problema seguinte foi a vacinação e a escolarização. E começou também a contactar outras pessoas e congregações religiosas que trabalhavam com os ciganos para troca de experiências.

Uma história com séculos

Depois, em todas as casas foram organizados centros de atividades de tempos livres. “O objetivo era mantermo-nos em contacto com as crianças e jovens, ao longo do percurso escolar, e para nos relacionarmos com as famílias. A pedido dos pais, criámos três jardins de infância. Fazem ainda atendimento de todas as pessoas que nos queiram colocar qualquer tipo de problema, que pode ser o interpretar um documento, escrever uma carta ou fazer um telefonema,  ou outros problemas mais complicados.

Há ainda os “cursos de alfabetização e escolarização” e “a colaboração em duas grandes festas religiosas de bairro, na Apelação e nos Olivais, em que toda a população, e não somente a cigana, adere”. FR conclui: "estamos no meio das pessoas e temos descoberto casos tão tremendos, e sofrimentos tão grandes que damos por bem empregado estarmos com as pessoas".

 Excerto dum artigo na Voz da Verdade